..............................................................Foto: http://i.olhares.comAndava sob o sol forte das dez da manhã tentando acompanhar os passos largos de seu pai, que parecia a cada segundo mais distante. Apesar da dor, seus olhinhos amendoados brilhavam porque todos os seus anseios agora pareciam afogados por um pedaço de pão com manteiga e um pequeno copo de suco.
Tentava pôr a mão junto à de seu pai e tentar explicar-lhe a dor nos pés, pois não conseguia mais caminhar descalço sobre aquele chão quente. Mas a reação daquele homem, tão grande e de pernas tão largas, era sempre a mesma: continuar andando. E ele, pequeno, sentia-se limitado por não saber falar. A saída que encontrava era continuar comendo, para que pelo menos por mais alguns minutos seus olhos continuassem a brilhar.
Entretido pela fome, esqueceu-se da ardência nos pés e pôs-se a seguir o ritmo de seu pai, mesmo que, para ele, aquilo fosse humanamente impossível. Com seus cabelos grandes a atrapalhar sua visão, as mãos ocupadas e os pés a arrastar no chão, permitiu-se fazer parte daquela metrópole insana e daquele calor que o tomava por dentro, mesmo sem ter consciência alguma. À medida que caminhava, foi sumindo, magro, pela avenida, tornando-se cada vez mais pequeno e chegando, em um determinado momento, a tornar-se um menino invisível.

